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segunda-feira, 2 de novembro de 2026
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Saúde

Mudanças climáticas ampliam surtos de doenças infecciosas no Brasil

Estudo aponta aumento de dengue e outras enfermidades com elevação de temperatura.

Mudanças climáticas ampliam surtos de doenças infecciosas no Brasil
Foto: Reprodução / Agência Brasil — Saúde

Desde a década de 1980, o Brasil tem enfrentado surtos de dengue, mas foi somente em 2007 que o Rio Grande do Sul registrou seu primeiro caso local não importado. Historicamente, as condições climáticas do estado funcionavam como uma proteção natural contra a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. No entanto, essa situação tem mudado drasticamente. Em 2024, o estado contabilizou cerca de 210 mil casos confirmados de dengue e 281 mortes, um aumento alarmante que evidencia a relação entre mudanças climáticas e a saúde pública.

A exemplo do Rio Grande do Sul, a Bahia, que já lida com temperaturas mais altas, viu cerca de 163 mil casos confirmados e 188 óbitos em 2024. Um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que, entre 2006 e 2024, o Brasil viu o número de microrregiões com níveis epidêmicos de dengue mais que dobrar, passando de 110 para 292, abrangendo cerca de 54% do território nacional.

Clima como fator determinante

A pesquisa aponta que o aumento nas anomalias térmicas é o principal fator que contribui para a elevação das taxas de incidência da dengue. Essas anomalias referem-se a temperaturas que se distanciam dos padrões normais por períodos prolongados. Os pesquisadores alertam que a expansão da área de transmissão da dengue parece ser um processo irreversível; o vírus e o vetor, uma vez introduzidos, tornam difícil a volta a um cenário sem transmissão.

Celso Granato, infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, destaca que o avanço da dengue é uma clara evidência do impacto das mudanças climáticas nas doenças infecciosas. O mosquito transmissor tem se espalhado não apenas por regiões mais frias do Brasil, mas também alcançado países do Hemisfério Norte, como os Estados Unidos, que atualmente enfrenta seu maior surto de dengue da história, além de casos registrados na França e na Itália.

Doenças emergentes e surtos relacionados

Além da dengue, outras doenças também são afetadas pelas alterações climáticas. A febre do Oropouche, que antes era restrita à Região Amazônica, causou mais de 12 mil infecções em 2023, espalhando-se por 23 estados e no Distrito Federal. A relação entre suas infecções e o clima está sob investigação, mas especialistas acreditam que a combinação de mudanças nas temperaturas e na quantidade de chuvas, junto à degradação ambiental, é um fator relevante.

Granato também alerta sobre surtos que podem ocorrer após eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, que têm se tornado mais frequentes em decorrência das mudanças climáticas. Um exemplo é o aumento da leptospirose no Rio Grande do Sul após enchentes, onde a bactéria se espalha pela urina de ratos e contamina a água. O risco de doenças gastrointestinais e infecções virais também aumenta com a contaminação das fontes de água.

Novas ameaças de fungos e doenças

As mudanças climáticas também têm possibilitado a emergência de novas doenças fúngicas. Sarah Gonçalves Tavares, professora da Universidade Federal do Espírito Santo, alerta que os fungos estão se adaptando a condições ambientais alteradas, aumentando o risco de infecções em humanos, principalmente em pacientes imunocomprometidos. O fungo Candida auris, por exemplo, tem se mostrado resistente a tratamentos e sua letalidade varia entre 40% e 60% em surtos hospitalares.

O primeiro caso de Candida auris no Brasil foi registrado em 2020, com 24 ocorrências em 15 estados até o momento. Além disso, o fungo Trichophyton indotineae, identificado em 2022, apresenta resistência a antifúngicos, o que torna seu tratamento mais desafiador.

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