A recente derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos trouxe à tona questionamentos sobre a tradicional aliança entre os EUA e Israel. O vice-presidente JD Vance apontou que a relação com Israel foi um dos fatores que contribuíram para a perda das maiorias na Câmara e no Senado por parte do partido Republicano, segundo sua análise de consultores próximos.
Na data das eleições, Donald Trump surpreendeu aliados israelenses ao anunciar a suspensão da ajuda militar ao país, que era de aproximadamente US$ 3,8 bilhões anuais, com previsão de continuidade até 2028. Para Bruno Huberman, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), essa decisão reflete uma mudança significativa nas relações entre Washington e Tel Aviv.
Huberman ressaltou que a assistência militar a Israel, que começou a ser fornecida desde o governo de John F. Kennedy, foi criticada nos últimos anos. Durante a presidência de Trump, essa ajuda foi ampliada de maneira substancial. Segundo a ONG Conselho de Relações Exteriores, Israel é o maior beneficiário da ajuda externa dos EUA, recebendo mais de US$ 300 bilhões desde sua criação, em 1947, incluindo US$ 224 bilhões em assistência militar.
Impacto nas eleições e manifestações
O atual presidente Joe Biden manteve o nível de ajuda a Israel, mesmo em meio a críticas em relação à situação na Faixa de Gaza, que alguns especialistas consideram genocídio. Essa ajuda gerou protestos em universidades americanas em 2024, com muitos argumentando que os recursos são utilizados para a compra de armamentos de empresas americanas, uma crítica levantada especialmente pela ala progressista do Partido Democrata.
As eleições também marcaram a vitória de Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano eleito para o Senado, que criticou abertamente os gastos com ajuda militar a Israel. El-Sayed afirmou que é injusto que crianças palestinas não possam viver em paz, enquanto seus impostos são usados para financiar conflitos.
Desafios na relação EUA-Israel
O professor Danny Zahreddine, especialista em conflitos do Oriente Médio, analisa que a decisão de Trump de suspender a ajuda militar pode ter tentado influenciar a candidatura de El-Sayed. Para Zahreddine, a relação entre os EUA e Israel tem se tornado cada vez mais desconfortável para os eleitores americanos, especialmente considerando as consequências da guerra em Gaza.
Paulo Abraão, diretor-executivo da Brazil Office Alliance, observou que a Casa Branca reconheceu os custos políticos da aliança com Israel, que agora enfrenta divisões eleitorais e ideológicas tanto entre democratas quanto republicanos. Ele acredita que a política externa dos EUA no Oriente Médio começará a ser um tema relevante nas eleições futuras.
A cidade de Providence, em Rhode Island, também demonstrou essa mudança ao aprovar, com 75% dos votos, uma medida que proíbe investimentos em países envolvidos em limpeza étnica ou genocídio, embora não tenha mencionado Israel diretamente.
Reação de Israel
Em resposta aos comentários de Vance, o presidente de Israel, Isaac Herzog, reconheceu a existência de um sentimento anti-Israel nos EUA, afirmando que Israel se esforça para manter apoio bipartidário. O representante de Israel na ONU, Danny Danon, contestou a análise de Vance, defendendo que é simplista culpar Israel pela derrota dos republicanos, sugerindo que é preciso ouvir as críticas a Israel dentro dos EUA.
O que se sabe até agora
- A derrota republicana nas eleições de meio de mandato levantou questões sobre a relação com Israel.
- Trump anunciou a suspensão da ajuda militar a Israel, surpreendendo aliados.
- A vitória de El-Sayed no Senado destaca a crescente crítica ao apoio militar a Israel.
- O apoio a Israel não é mais um consenso bipartidário nos EUA.


